Pós-graduação em linguística — é quando você passa 3 anos estudando como outras pessoas aprendem idiomas e esquece o seu
Em algum lugar, neste exato momento, um doutorando de linguística está terminando um capítulo da dissertação sobre a abordagem comunicativa no ensino de línguas estrangeiras — e está fazendo isso em português, porque escrever em inglês demora demais, e o prazo é daqui a uma semana.
O doutorando tem diploma com louvor, publicações em revistas acadêmicas, apresentações em congressos e uma compreensão profunda de como funciona a aquisição de segunda língua. Teoria de Krashen, hipótese do período crítico, interferência da L1, conhecimento implícito e explícito — tudo isso ele consegue explicar em detalhes.
Em inglês — não, em inglês não consegue, as palavras meio que não se encaixam, mas também não é necessário, porque os congressos são principalmente em português, e para os internacionais existe o Google Tradutor e a colega Marina, que dá uma revisada.
Peraí. A pessoa está escrevendo uma dissertação sobre como ensinar idiomas, mas não fala o idioma que estuda?
Sim. E isso não incomoda ninguém. Porque ciência é sobre pesquisa, não sobre prática. São coisas diferentes.
Como isso funciona
A pós-graduação é estruturada de forma elegante: durante três anos você lê artigos sobre como as pessoas aprendem idiomas, escreve artigos sobre como as pessoas aprendem idiomas e apresenta palestras sobre como as pessoas aprendem idiomas. Tempo para aprender o idioma você mesmo não sobra — mas isso também não faz parte do programa.
O que faz parte do programa: história dos métodos de ensino, psicolinguística, sociolinguística, metodologia de pesquisa, estatística, escrita acadêmica. Tudo isso é importante, tudo isso é necessário, tudo isso desenvolve o pensamento crítico.
E o idioma?
O idioma — isso não é coisa de pós-graduação. Idioma é separado, no tempo livre, que não existe, porque o artigo não se escreve sozinho e o edital de financiamento não se inscreve sozinho.
Três anos depois, o doutorando defende a dissertação sobre “Formação da competência comunicativa em estudantes de cursos de Letras” e se torna doutor. A competência comunicativa dele em inglês está mais ou menos igual a três anos atrás, mas isso já são detalhes — o importante é que agora ele é especialista.
Ciência vs. prática
Eis o que é interessante: em qualquer outra área, isso pareceria estranho.
Imagina um cirurgião cardíaco que passa três anos estudando métodos de cirurgia cardíaca, mas nunca operou — porque cirurgia é prática, e ele faz ciência. Ou um treinador de natação que não sabe nadar, mas leu todas as pesquisas sobre biomecânica da braçada.
Soa absurdo, né?
Mas na linguística isso é normal. Dá para defender uma dissertação sobre ensino de inglês sem dominar inglês em nível suficiente para uma conversa cotidiana — e ninguém vai perguntar, porque são competências diferentes: a de pesquisa e a prática.
Competências. Diferentes.
E o fato de que a pessoa com competência de pesquisa depois vai dar aula de idioma para estudantes — bom, o sistema funciona assim, não é culpa dele.
Um dia na vida
A manhã do doutorando começa com a leitura de um artigo fresquinho do Journal of Second Language Acquisition — com dicionário, porque academic English é uma habilidade à parte, que também não dá tempo de desenvolver, então a leitura é lenta, mas pelo menos é aprofundada.
De tarde — seminário, onde o doutorando fala para os alunos sobre a importância da imersão no ambiente linguístico e da prática regular. Os alunos anotam. O doutorando acredita no que diz — a teoria confirma que imersão funciona.
O próprio doutorando mergulhou pela última vez no ambiente linguístico no segundo ano da graduação, quando foi para uma escola de verão na Inglaterra por duas semanas. Desde então — só livros didáticos, artigos e raras videochamadas com colegas estrangeiros, onde todo mundo fala devagar e pede para repetir três vezes.
À noite — trabalho na dissertação. Capítulo sobre motivação no aprendizado de idiomas. A ironia da situação não é visível para o doutorando, porque ele está ocupado com algo importante: contribuindo para a ciência.
Por que isso acontece
Vamos descobrir quem é o culpado. Spoiler: ninguém.
O sistema de pós-graduação é voltado para a produção de textos científicos, não de habilidades práticas. O critério de sucesso é publicação e defesa, não nível de proficiência no idioma. Ninguém pergunta na defesa “e aí, fala alguma coisa em inglês” — perguntam sobre metodologia e contribuição científica.
O orientador? Ele mesmo passou pelo mesmo caminho vinte anos atrás e também não fala lá muito bem os idiomas que pesquisa. Isso não o impede de ser um professor respeitado e membro de bancas de doutorado.
A CAPES? Ela quer artigos em revistas com peer review, não certificados de IELTS.
A universidade? Ela quer defesas, porque disso depende o financiamento.
Todo mundo faz seu trabalho. Só que esse trabalho não inclui o item “saber fazer aquilo sobre o que você escreve”.
A parte mais elegante
Eis o que é realmente elegante: os formados dessas pós-graduações depois vão dar aula.
Eles ensinam idiomas para estudantes usando os métodos sobre os quais escreveram suas dissertações. Métodos que nunca aplicaram em si mesmos. A abordagem comunicativa, sobre a qual tanto leram, mas que não os ajudou a falar — porque não tinha tempo de aplicar, né, a ciência.
Os alunos escutam, anotam, fazem provas. Depois vão para Heathrow e não conseguem explicar que a bagagem foi parar em Dubai.
Mas isso já não é problema do professor. O professor fez seu trabalho: passou o conteúdo, aplicou a metodologia, deu a nota.
O sistema funciona?
O sistema funciona.
Em vez de final
Cinco anos depois da defesa, o ex-doutorando está sentado em um congresso internacional em Praga. Apresentação em inglês. Bom, tipo em inglês — o texto foi escrito, ensaiado, lido do papel com as entonações certas.
Depois, perguntas da plateia. Um alemão pergunta algo sobre a amostra da pesquisa.
Na cabeça: silêncio. As palavras existem, mas não se encaixam em frases, e o alemão fala rápido e com sotaque, e não é aquele inglês dos livros didáticos.
“Could you repeat the question, please?”
O alemão repete. Mais devagar.
Depois do congresso — coquetel. Todo mundo conversa, brinca, discute pesquisas. O ex-doutorando fica ali com uma taça de vinho e sorri, porque não consegue encaixar uma fala na conversa — rápido demais, informal demais, diferente demais do livro.
Mas a apresentação foi bem. A publicação vai sair. A carreira avança.
E o idioma… bom, idioma é separado. Um dia, depois. Quando terminar esse projeto de financiamento — aí vai estudar.
Com certeza vai estudar.